segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lírico, documentário revela Manoel de Barros biológico


Diretor diz que precisa de apoio local para filme ser exibido em Campo Grande

Após três anos de produção, onze cortes e exibição na Mostra de Filmes Internacional de São Paulo em 2008, o filme “Só Dez Por Cento É Mentira”, sobre a vida e obra do poeta Manoel de Barros, teve sua pré-estreia na última quinta-feira (14) em São Paulo. Mas, por enquanto, os telespectadores sul-mato-grossenses não poderão assistir ao filme. Ele estréia apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo no dia 22 de janeiro e espera a aceitação do público dos dois maiores centros do País para garantir recursos para ir às outras capitais.

Em Campo Grande (MS), cidade do poeta, no 7º Festival de Cinema que começou sexta-feira (15), nenhum sinal da poesia e da obra sobre de Manoel. “Não tem previsão, não tem dinheiro para isso. Falta convite, vamos ver se acontece”, esquiva-se o diretor Fábio Cézar, sobre a possibilidade de exibição na Capital. Ele afirma que, com poucos, recursos seria mais viável a exibição do longa no formato digital. “Até onde sei não existe uma sala com essa possibilidade na cidade. Teria que haver uma projeção em outro espaço, mas para isso precisa de interesse das pessoas de lá”, diz.

Enquanto a viabilização para exibição da produção em Campo Grande não se concretiza, o documentário revela o ser biológico escondido pelo poeta para paulistanos e cariocas. Um filme que segue o manual de Manuel. “Há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, revela uma das passagens.

Com imagens lúdicas, personagens inventados e trilha sonora própria, o documentário embarca nas palavras do poeta e se inspira nela para inventar personagens. Não é um documentário sobre a poesia de Manoel, mas sim, com a sua poesia. Há nele, o inventor de objetos e o guia turístico corumbaense, interpretados por atores que simulam fabricar esticador de horizontes ou guiar turistas pelas paisagens inventadas pelo poeta na cidade pantaneira. E que ao final, se descobre que não passa de um engodo. Um lírico e perspicaz engodo, mas um engodo.

Talvez venha daí a discussão se o filme é documentário. “É apenas um filme”, repete o diretor, com medo de que o rótulo “documentário” espante o público. “Ainda há um estigma, quando se fala que é documentário, as pessoas imaginam algo da TV Cultura. Esse é um filme lírico que tem como protagonista a linguagem e gostaria que assim fosse chamado: "filme”, completa Pedro Cézar.

No “filme”, o diretor começa revelando como conseguiu contato com Manuel, conhecido por sua aversão às entrevistas. “Passei vários dias em Campo Grande tentando falar com ele. Ele pedia que eu fizesse o filme baseado na sua obra, dizia que o ser biológico não interessa, só o letral. Eu respondi, que era só um sonho. Foi quando ele fez um silêncio e topou conversar comigo”, narra o diretor enquanto imagens do céu visto do alto da Avenida Afonso Pena ilustram a tela. A grandiosidade do pôr-do-sol campo-grandense contrastam com aquilo que o autor escreve. “Só as coisas rasteiras me celestam”, diz um dos trechos citado no filme para lembrar que suas palavras se dedicam à pequenez das coisas miúdas.

Quando fala, Manuel justifica sua aversão às entrevistas. “Eu falo e escrevo absurdez. A palavra oral não dá rascunho”. Arredio como uma criança arteira, o poeta lembra que sua inspiração remete a essa fase. “É dela que vem as primeiras sensações, os primeiros ruídos. Só tive infância”, ressalta. Ele lembra que sua obra não é biográfica e que só possui imagem inventada. “Só tenho uma coisa a dizer: 90% do que escrevo é invenção, só 10% é mentira”, escreve, dando deixa para o nome do filme que o retrata. E para quem tenta interpretar o que escreve, ele adverte: “Poesia não é para compreender é para incorporar. Razão é a última coisa da poesia”. Com sua simplicidade peculiar, o poeta diz que não que dar aos leitores informações, mas encantamentos. “Quem descreve não é dono do assunto, quem inventa é”.

Manoel conta que pôde se dedicar integralmente à escrever quando conseguiu viver dos rendimentos de sua fazenda no Pantanal. “Comprei o ócio e virei vagabundo profissional”, diz. Ele acredita que a poesia é a “virtude do inútil” e jura que não sabe o que é inspiração. “Sou procurado pelas palavras, que se apaixonam por mim. Só conheço inspiração pelo nome”, revela. No “lugar de ser inútil”, como denomina seu escritório, Manoel se abre em risadas e mostra os poemas. “É pra isso que eu presto”.

Para os que dizem que seus versos retratam a natureza e o Pantanal, ele rebate afirmando que não é poeta de paisagem, ecológico e que não quer fazer folclore. “Poesia é filha da linguagem não da paisagem, eu invento o meu Pantanal”, diz. Também lembra que seus poemas não formam um soneto e não fazem rima, mas são especialistas em fazer “coisificação do ser, humanização das coisas e vegetalização do ser”.

Entre a revelação de que toma uma dose de pinga ou whisky diariamente, o ser biológico lembra da admiração por Charles Chaplin. “O vagabundo de Chaplin é o herói do nosso século, o desheroi”. Mas o alterego do poeta é Bernardo, caboclo que trabalhou nas fazendas de Barros, personagem presente na sua obra. “Bernardo é quase árvore, o silêncio dele é tão grande, que os passarinhos ouvem de longe”, escreve. Noutra poesia, torna a versar sua admiração pelo pantaneiro. “Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?”

No documentário, o admirador de deseheróis inspira e arranca depoimentos apaixonados da poeta e atriz Elisa Lucinda, do cineasta Joel Pizzini, dos filhos Martha Barros, ilustradora dos livros do pai, e João Wenceslau, morto em acidente de avião, e da mulher, Stella Barros. Eles falam de um Manoel que gostaria de ser lembrado como poeta por considerar que só sua poesia pode salvá-lo da perenidade biológica. E é dela que vêm os melhores silêncios provocados pelo filme.

O tempo só anda de ida

Me procurei a vida inteira e nunca consegui encontrar
- pelo que fui salvo

Imagens são as palavras que nos faltaram

Repetir, repetir até ficar diferente
Repetir é dom do estilo

Olho vê
Lembrança revê
Imaginação transvê
O mundo precisa transver

[Correio do Estado/18/01/2010]

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O Sertão Possível

*
Terra branca e rachada, plantas secas, rios que só estão presentes em nomes de placas. Esse é o cenário de Independência, município, a 309 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Mesmo para quem mora no estado onde fica o Pantanal, a maior área alagada do mundo, a imagem soa familiar, já que o sertão nordestino é alvo de diversas reportagens que mostram a realidade da região.

Não dá para negar: o lugar que utiliza galhos secos como cercas tem um clima de tristeza. A melancolia, no entanto, é logo espantada por um coral de crianças que entoam uma música e parecem querer mostrar outras possibilidades do semi-árido brasileiro.
- Seja bem vindo a casa é a sua, fique a vontade - cantam os alunos da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, em ritmo de ciranda, com sotaque local e orgulho nos olhos.

Mas em um cenário como esse, de que elas se orgulham? Elas logo se apressam em mostrar o motivo. No auge da seca, que já dura mais de sete meses, o que é comum todos os anos na região, os 72 alunos da escola conseguem cultivar frutas, verduras, hortaliças e ainda criar porcos, cabritos e galinhas. O segredo é a perseverança de um povo guerreiro que buscou várias alternativas para conseguir água em um local em que choveu apenas durante uma semana em 2007.
- Fazemos uma base embaixo do solo por meio de um buraco profundo, colocamos lona para proteger e represamos a água encontrada – relata Adão (foto).

O garoto de 17 anos lembra muito Elieldo, de 28. A semelhança não é física, mas pode ser percebida a olhos nus. Os dois moram na mesma região do país, a mais de três mil quilômetros de Campo Grande (MS), mas não se conhecem. Ambos são líderes natos e residem no interior do interior do Brasil e lá pretendem ficar.

Adão Sérvulo é aluno da 7ª série da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, localizada na área rural do município de Independência. Já Elieldo Gonçalves é um dos diretores da Associação Comunitária de Pequenos Produtores de Várzea do Toco, comunidade que abriga 57 famílias e fica no outro extremo do município de Independência.

Os dois são personagens de uma história que se constrói no dia-a-dia, em um local em que o sol está presente em todos os lugares, inclusive nas pessoas: no cheiro, no tom e na textura da pele. Eles usam calça jeans e camisa, vestem o rótulo de sertanejo e têm brilho no olhar e alegria na voz. Ambos nasceram com o pé no chão, a mão na enxada, o sol na cabeça e muita determinação.

Elieldo é conhecido em sua comunidade como “chave”, afinal tudo o que os outros moradores - mesmos os mais velhos - vão fazer consultam-no. Elieldo é o responsável por ativar a mandala, tecnologia utilizada para irrigar a água para as hortaliças.

É ele também quem liga a luz e faz as contas da associação. É uma pessoa que vive lá, longe dos olhos dos governantes, da multidão, e constrói uma vida tentando ser justo e honesto, com admiração ao lugar em que mora. – Já trabalhei como garçom em Fortaleza, mas gosto daqui. É onde sou feliz e não quero sair. Vamos aprendendo as técnicas de plantar no semi-árido e repassando para os outros.

Na casa simples de Elieldo, assim como na maior parte das residências de Várzea do Toco, há uma antena parabólica. Ele, que é solteiro e mora com os pais, tem na sala aparelho de som, televisão, DVD, entre outros aparelhos eletroeletrônicos adquiridos a partir de 2004, quando chegou a luz na comunidade.

O porta-CDs abriga clássicos do forró local como “Limão com Mel” e ícones da música sertaneja como “João Mineiro e Marciano”. A família Gonçalves possui também sacos de alho, panelas grandes e fogão de barro na cozinha. No quarto, além da cama e do guarda-roupa há um ventilador e um violão, que o sertanejo arrisca tocar para os amigos nas noites enluaradas de Independência.

Tudo que acontece na comunidade é decidido em conjunto. A partir da união dos moradores da Várzea do Toco, que fundaram a associação há 12 anos, foi possível conseguir mais do que a luz, ou o que qualquer outro programa assistencial de governo pode dar a uma pessoa. Eles conquistaram a dignidade.

– Passamos a produzir na horta comunitária o que comemos. Vendemos o excedente e dividimos o dinheiro. Fizemos a convivência com o semi-árido se tornar possível. Valorizamos o lugar onde vivemos e temos orgulho daqui – diz a professora Ana Neri, 27, moradora da Várzea do Toco e secretária da associação de moradores.

Driblando o tempo

Tanto na escola, onde Adão passa 15 dias seguidos, quanto no Assentamento Pintada, onde mora com os pais, e passa os outros 15 dias do seu mês, são utilizadas cisternas para captar a chuva. Por meio de calhas que recolhem a água que cai sobre o telhado das casas elas armazenam até seis litros. No assentamento onde Adão mora, são 31 reservatórios, que fazem parte do programa “Um Milhão de Cisternas Rurais”, da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (Asa), movimento que reúne 750 entidades, sindicatos e associações nos nove estados da região Nordeste, além de áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo, que fazem parte do semi-árido brasileiro.

Ao todo, foram construídas pelo programa 220 mil cisternas em 1.031 municípios da região, beneficiando 1 milhão de pessoas. O objetivo do projeto é chegar a 1 milhão de cisternas, atingindo 5 milhões de pessoas. - A intenção é conviver com a região por meio de organização política e de produção, afinal, os açudes são rasos e vão evaporando ao longo do ano. Eles também não permitem a distribuição de água, que é fundamental para a segurança alimentar. Com a cisterna permitimos a democratização desse bem - afirma o articulador da Asa, Lourival Almeida.

Na Escola Família Agrícola Dom Fragoso, a cisterna está vazia e aguarda o “inverno” no sertão, período de chuva, que com sorte vai de janeiro a maio. Enquanto, a cisterna está vazia, a água é captada de um açude, que presencia diariamente um belo espetáculo de pôr-do-sol. Hora em que as crianças descansam das atividades escolares e jogam uma pelada.

Mas aqui, os verdadeiros gols são feitos em áreas experimentais em que cada aluno produz uma cultura agrícola na comunidade onde mora e ajuda a colocar comida na mesa de casa. - Na minha casa não fazia nada, começamos a produzir verduras depois que vim para escola. Agora cada dia minha mãe inventa uma comida diferente – diz, com sorriso tímido, Jaciara Pereira Sousa, 12, aluna do 7º ano da escola.

As lições presentes nos livros didáticos, nas paredes, na lida do campo, na ideologia e no hino da escola, são decoradas pelos alunos e estão na ponta da língua: “A Escola é fruto da luta do povo que quer ver um mundo novo, que ninguém tenha mais fome. Hoje uma conquista nossa do trabalhador da roça que quer ser cidadão”.

*O jornalista viajou ao Ceará em novembro de 2007 à convite da Organização Não-Governamental Catavento, agência da Rede Andi Brasil no Ceará, para participar da “Oficina Itinerante Convivendo com o Semi-Árido”. Esta matéria e as outras produzidas sobre o assunto nunca foram publicadas no jornal em que trabalhava na época. Nenhuma justificativa plausível foi dada pela diretoria do impresso.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Próxima parada: Terminal Morenão

Esse lugar é o centro das contradições. É aqui que se mostra o preconceito, que se vive a diversidade, que não se respeita os direitos. É lá que se discrimina, que é possível ter alegrias e sofrimentos.

É por ali que passa a travesti indo para o trecho, a patricinha para a faculdade, o peão para a cidade, o hippie para o Parque de Exposições, a doméstica para a casa da patroa...

E acolá (bem em frente ao terminal), o grafiteiro colore o prédio abandonado, o bombeiro treina, o fanático prega, o carteiro seleciona correspondências, o mecânico se suja, o negro carrega caixas com verdura e a menina que terminou o Ensino Médio vende brinquedos.

A senhora tem a coluna encurvada, os cabelos brancos, os olhos claros. A pele branca é marcada por rugas. O único traço de beleza são os miúdos olhos verdes e a presilha que prende o coque: - É menino ou menina, ali de vermelho? – interroga, se atrevendo a interromper o silêncio e invadir o pensamento alheio.

- Menino – é a resposta. Ela se espanta e olha mais uma vez sacudindo a cabeça e sentenciando: - A gente vê cada coisa nesse mundo! Ela volta ao silêncio. A cabeça daquele que foi questionado fervilha: - É evangélica! – conclui.

O menino de camiseta vermelha tem cabelo curto, usa calção e chuteira e tem trejeitos masculinos. Está junto a um grupo de cinco meninos. Um deles é bem mais alto e se destaca do grupo. É magro e usa cabelo cumprido, boné e mochila. Eles não têm mais do que 16 anos. Outro é visivelmente extrovertido, falante e brincalhão. Ele faz “carinho” no menino de vermelho. Os cinco meninos atravessam o terminal conversando. O extrovertido massageia a mão do de vermelho. O gesto simples entre dois amigos escandaliza a velha. A camisa de uma deles denuncia: “handebol”. São meninos que jogam handebol e utilizam as mãos para as jogadas... Mas os olhos daquela senhora já estão gastos e viciados e não conseguem mais ver. No que ela enxerga, há diferença.

Cabelos exageradamente loiros, praticamente brancos. Muito escovado. O rosto exibe traços marcantes, rugas fortes e bem definidas. Com jeito sexy, se escora na barra do ônibus. As roupas são decotadas e chamativas. Tem mais de 50 anos, é negra e não poderia ser taxada de bonita. “É uma trabalhadora do sexo” – pela maneira que encara, pelo olhar lânguido e perdido, pela boca excessivamente vermelha, pelos seios apontando pela blusa sem sutiã...

O lobo-mau é fiscal no terminal. A rima não é intencional. Pedro cuida dos horários dos ônibus no Terminal Morenão, em Campo Grande. Nas horas vagas ele é o lobo-mau da peça “Chapeuzinho Vermelho”. Ele é ator, aqui é mais um que passa despercebido.

Outro usa gel, topete, tem olhos claros, cara de menino e lembra um amigo de infância. Também passa em meio as pessoas, organizando, anotando e se perdendo na multidão. Usam camisa azul e calça social preta. No meio da multidão que espera um ônibus, todos são mais um, na sua diferença e igualdade. Eu? Sou mais um deles.

Almoçando com Jesus

“Deus é fiel”, diz a placa com o nome da igreja. O prédio antigo e simples fica no Bairro São Francisco, em Campo Grande. O nome santo do bairro destoa de alguns seres que transitam por ali. A região precisa de preces constantes. Na Santa Casa, milhares de pessoas aguardam por um milagre. Assim como acontece no entorno do hospital, onde há clínicas, farmácias e lanchonetes frequentadas pelos enfermos.

Na igreja, um cartaz convida para orações diárias. Ao lado dela, um corredor leva a um salão nos fundos do templo. A calçada é irregular e já no início do trajeto uma mulher, que veste saia comprida e blusa sem decotes, parece se surpreender com os jovens que querem acessar o salão: “Vieram almoçar?”. Os dois amigos conversam animadamente e confirmam que sim.

Eles trabalham em frente a igreja e planejaram durante um bom tempo provar o “Almoço com Jesus” anunciado na placa em frente ao templo. Entram no salão, que fica nos fundos da igreja, e não parecem se abalar com o cenário de improviso. Continuam o papo sobre o cotidiano. São servidos em um prato de uma louça esmaltada, daquelas que não quebram, e quando fica velha começa a descascar no fundo. A comida parece uma papa. Nem lembram direito o que comeram. Ao lado deles, uma “irmã” puxa assunto. Ela é loira e tem a pele e a expressão desgastadas por anos vividos na rua. Recém-convertida, a mulher que já passou dos 40 anos, mistura as gírias da rua -“corre”-, com as expressões da igreja “tá amarrado, em nome de Jesus”.

Pronto. Encontraram o que queriam. Uma pessoa para bater papo e que expressa muito daquele lugar. O “Almoço com Jesus” é um chamariz para os moradores de rua, na sua maioria, usuários de drogas, irem até a igreja e se converterem. As refeições começam a ser servidas às 11 horas. Como já era meio-dia, não tinha restado mais ninguém no salão e também não tinha muita comida, mais isso era o de menos. Sentiram falta apenas das orações. Como não eram o público-alvo do almoço, os pastores parecem ter ficado intimidados com a presença deles. No entanto, os dois jornalistas sem religião não saíram do lugar sem o desejo de “vão com Deus, irmãos!”.

Agora, quando quiser almoçar com Jesus você já sabe que é só procurar a Igreja Mistérios da Fé – Deus é fiel, localizada no cruzamento das ruas Eduardo Santos Pereira e 13 de Maio, no Bairro São Francisco, em frente a Santa Casa de Campo Grande.

*Minha companheira na refeição com Jesus foi Marcelle Souza. O texto foi escrito em agosto de 2007, quando fomos a igreja.

domingo, 26 de outubro de 2008

Jornalismo literário, real e possível

A idéia é que este blog seja um espaço para o jornalismo literário, real e possível. Ele surge da necessidade de praticar e dividir experiencias neste sentido. Para começar nada melhor do que uma entrevista com Edvaldo Pereira Lima, um dos expoentes dessa área. A entrevista originalmente foi publicada no dia 4 de outubro no jornal O Estado (de Mato Grosso do Sul), no qual trabalho. (veja a publicação ao lado)

Edvaldo me atendeu por telefone, foi simpático e se mostrou bastante acessível.

Entrevista

A arte de contar o real

Edvaldo Pereira Lima, um dos maiores teóricos do jornalismo literário, vem à Capital


Aos 57 anos, o senhor calvo e de cabelos brancos é professor, jornalista, escritor e reúne muitas histórias ao longo de uma carreira consagrada. Autor de livros obrigatórios para interessados em jornalismo como "O Que é Livro-Reportagem", Edvaldo Pereira Lima estará em Campo Grande na terça-feira (7) para participar do 3º Encontro de Jornalismo da Uniderp. Na ocasião, ele vai debater sobre a arte da narrativa da vida real, vertente do jornalismo que adota técnicas da literatura. Na Capital, Edvaldo lança ainda a quarta edição do livro "Páginas Ampliadas". O jornalismo literário é a paixão e o objeto de estudo daquele que foi um menino que escrevia histórias de ficção em cadernos e hoje tem como objetivo propagar essa vertente mais "agradável" do relato das histórias do cotidiano.

Confira abaixo a entrevista com Edvaldo Pereira Lima.

O Estado – A relação do jornalismo com a literatura é bastante antiga. O que o senhor define como Jornalismo Literário?
Edvaldo – Alguns acreditam que tudo tenha começado com o "novo jornalismo" americano. Mas começou, na verdade, no final do século 19, quando repórteres ingleses saíram para cobrir uma guerra na África do Sul. Os repórteres viram que a guerra é caótica, e, por isso, é preciso ter um texto forte para cobri-la. Eles resolveram importar técnicas narrativas da ficção e usar ferramentas literárias na descrição da realidade. Perceberam que o texto mais curto, que caminha para o lead, tem a função de informar rápido, mas é limitado para situações como guerra. Em "Os Sertões", Euclides da Cunha inspira esse jornalismo contundente. João do Rio foi o primeiro profissional do Brasil a sair para a rua para entrevistar pessoas, participando do espaço delas para tentar entender o que acontece ali. Na década de 20, já havia jornalismo literário nos Estados Unidos. O grande segredo do que existe até hoje é contar histórias. É a arte voltada para relatar o real com propriedade. Na década de 50 já estava estabelecido com esse nome porque importou técnicas da narrativa, de uma escola chamada realismo social. Isso foi sendo aperfeiçoado, a redescoberta do realismo social foi levada para prática do jornalismo norte-americano. Tom Wolfe foi um grande profissional dessa área. Foi o primeiro a trabalhar com a técnica do fluxo de consciência que reproduz o pensamento caótico do personagem. James Joice fazia isso em suas histórias, reproduzindo a confusão de pensamentos do personagem. Isso atingiu tal grau que as produções podem ser entendidas como literatura de boa qualidade.

O Estado – É possível utilizar o jornalismo literário no dia-a-dia?
Edivaldo – Sim, mesmo com uma equipe reduzida você manda um repórter cobrir a pauta, para fazer o básico do jornalismo convencional e coloca outro repórter do jornalismo literário para procurar ângulos diferenciados. Uma das marcas do literário é a humanização. Na matéria do dia seguinte você terá o relato e pelo menos um box mais humanizado. O Zero Hora (RS) faz um pouco essa produção. O Diário da Manhã (GO) fez um experimento contando histórias de pessoas que escrevem cartas para o Papai Noel. Foi uma série que marcou muito, foi modesto, mas eficiente. Mesmo com condições difíceis operacionalmente, é possível fazer isso. A internet é um tremendo veículo para utilização do jornalismo literário. No Brasil há um vício de que na internet só pode colocar texto curto. Se você souber usar recursos como ilustração, som, fotos, o texto pode ser grande, narrativo, interessante, sabendo usar o jogo do meio e dividindo a matéria em capítulos. É possível fazer jornalismo literário na televisão e no rádio também. A narrativa do real, do cinema documentário, tem uma produção baseada nas figuras humanas muito próximas do jornalismo literário. Eduardo Coutinho e João Moreira Sales são dois expoentes dessa prática.

O Estado – O João Moreira Sales é editor da revista Piauí, que ao lado da Brasileiros, configuram como novas publicações que adotam o jornalismo literário em seus textos. Elas são os grandes expoentes dessa vertente hoje?
Edvaldo - Temos alguns periódicos que praticam isso. A Brasileiros nasceu com essa idéia. É a revista que tem mais consistência e regularidade no jornalismo literário. Na Piauí, eu não sei se é a proposta fazer jornalismo literário, mas tenho impressão que eles têm uma política editorial de textos mais opinativos, como os que eram feitos em jornais nanicos como o Opinião e o Pasquim. Seus textos ora são mais típicos do jornalismo literário ora são mais um jornalismo de opinião de qualidade. A Roling Stone Brasil também adota o jornalismo literário. Na Época trabalha a Eliane Brum, que eu coloco entre as cinco melhores profissionais que praticam o jornalismo literário. Ela não dá espaço só pela celebridade, coloca em primeiro plano os anônimos como maneira de compreender o mundo. Na Trip, o Artur Veríssimo pratica uma vertente do jornalismo literário chamada Gonzo. Ele faz um trabalho muito bom dentro dessa revista, de um jeito engraçado. Há também experimentos no Correio Braziliense (DF), O Estado de São Paulo e até na Folha de São Paulo, que tem matérias curtas, mas experimenta textos mais literários no Obituário. Há matérias humanizadas e experimentos na editoria de Esporte do jornal Gazeta do Povo (PR). Isso mostra que o jornalismo literário pode ser aplicado em todas as áreas de cobertura e ser colocado em circulação para todo tipo de público. O jornalismo literário está presente ainda na produção de livro-reportagem, principalmente na biografia, proporcionando um texto envolvente, que ganha em qualidade.


O Estado - Qual espaço o jornalismo literário ainda precisa conquistar?
Edvaldo - Precisa conquistar presença significativa nos periódicos. Na medida em que se tornar mais conhecido, vai adaptar prática em condições peculiares dando salto de renovação. Isso assegura e aumenta o número de leitores. Os jornais impressos têm de fazer isso, precisam fazer uma a autocrítica. Não podem ficar correndo atrás do prejuízo dando notícia do dia-a-dia que já é dada pela TV e internet. O papel do jornal diário é fazer o que os outros têm mais dificuldade: matérias com profundidade, humanização, narrativa e contar histórias. O leitor prefere texto preparado de maneira narrativa, que conta uma história. Isso fica mais fácil de assimilar, como as histórias da infância.

O Estado – Como e quando decidiu ser jornalista?
Edvaldo - Quando garoto gostava muito de escrever, comprava cadernos e criava histórias de ficção. Aos 12 anos tinha oito cadernos com histórias. Aos 14 anos criei um jornal mural na escola que freqüentava. Morava em Três Marias (MG), quando elegeu-se o primeiro prefeito da cidade, que era o jornalista Flávio Ferreira de Belo Horizonte. Eu queria entrevistá-lo e bati na porta dele. Ele achou surpreendente um garoto como eu ter esse interesse. Ficou entusiasmado e me deu um livro sobre jornalismo. Quando eu tinha 15 anos, surgiu a "Realidade", principal revista do jornalismo literário. Isso me entusiasmou muito. Com 17 anos, fui morar na Costa Rica com um casal de americanos. O dono da casa era vice-editor de um jornal em língua inglesa. Eu trabalhava entregando o jornal. Até que fui incentivado a produzir os primeiros textos em inglês. Passei dois anos no exterior entre a Costa Rica e a Europa.

O Estado – Nessa época já pensava em cursar jornalismo?
Edvaldo – Quando voltei não tinha documentação como cidadão brasileiro adulto. Tive de ir para Brasília, junto do meu irmão, para regularizar isso. Depois de um ano me transferi para São Paulo. A Cásper Líbero só teria vestibular para o curso de jornalismo dali a seis meses. Como sempre gostei de viajar, resolvi economizar tempo e fazer Turismo na faculdade Morumbi. Nessa época fiz amizade com o Mário Prata, que era editor do caderno de Cultura do jornal Última Hora. Ele me convidou para escrever no caderno. A gente produzia contos e publicava em mimeógrafo. A faculdade de Turismo tinha foco grande em administração de empresas e eu tinha talento com a escrita, vi que não era minha praia. Depois, acabei sendo aceito no mestrado em Ciências da Comunicação da USP e fui convidado para ser professor de Redação, na Faculdade de Turismo no Morumbi. Ao mesmo tempo, colaborei com a Folha (de São Paulo) e Última Hora. Após isso, fui lecionar na Cásper Líbero e só então cursei jornalismo na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo.

O Estado – Como foi sua carreira como jornalista?
Edvaldo – Planejei minha carreira para que não se limitasse na área educacional. Era professor da USP, mas queria também me aproximar da redação, tentando unir duas coisas. Viajar e escrever. Me candidatei a trabalhar na revista de turismo Pan Rotas, que não é vendida em bancas, mas é a mais conhecida dos profissionais do setor. Fui como repórter e depois de três meses virei editor. A revista estava em uma fase em que queria textos mais narrativos, que era a minha especialidade. Foram dois anos, depois resolvi me especializar mais e fui para a área de aviação, para escrever para revista Voar. Fiz doutorado na USP e fui escrevendo livro-reportagens. Em 19 anos de carreira na USP, fui preparando vários orientandos. Alguns colegas e eu achamos que era um pouco triste o conhecimento ficar limitado a uma universidade e quisemos trazer isso para pessoas que estão no mercado e que não têm interesse em uma carreira acadêmica, mas têm vontade de se instrumentalizar. A partir disso, nasceu o site Texto Vivo. Depois criamos a Academia Brasileira de Jornalismo Literário, que oferece especialização em Jornalismo Literário.

O Estado – O senhor está preparando algum livro agora?
Edvaldo – Eu sou um escritor que não gosta muito de falar o que está fazendo. Agora estou dedicado a quarta edição do livro "Páginas Ampliadas", que tem um capítulo só sobre jornalismo literário. O primeiro lançamento será em Campo Grande. Minha atenção é ajudar o livro a ganhar o espaço dele. Quero sensibilizar profissionais, estudantes à prática do Jornalismo Literário. Ajudar as pessoas a conhecerem esse jornalismo mais agradável.

SERVIÇO – www.textovivo.com.br